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Depois do êxito do romance Boca do inferno - mais de cinqüenta semanas na lista dos mais vendidos e direitos de publicação adquiridos em treze países -, Ana Miranda volta a abordar com os recursos da ficção outro episódio do nosso passado. O retrato do rei é a narrativa da Guerra dos Emboabas, na qual paulistas e portugueses se defrontaram, no início do século XVIII, pelo controle da região do ouro nas Minas Gerais. No centro desta empolgante história, paira o mistério do desaparecimento do retrato de d. João V, a única coisa que talvez pudesse ter evitado o colapso da ordem e o derramamento de sangue. "Ana Miranda consegue retratar essa luta, e envolver o leitor, através de uma linguagem simples e agradável, num quadro que se situa no século XVIII, mas que em boa parte poderia ser intemporal - cupidez, violência, corrupção e arrogância não são privilégio de uma época... É um livro que merece ser lido, e que certamente há de ser lido com prazer." José E. Mindlin ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Jornal do Brasil, Caderno B, 25 de agosto de 1991 (matéria escrita por Artur Xexéo) Uma escritora que vale ouro Logo após emitir uma mensagem convencional em português, a secretária eletrônica de Ana Miranda repete o texto em inglês. Não é esnobismo. Nos últimos tempos, a escritora está sempre em contato com os tradutores de seu romance de estréia -- Boca do Inferno -- lançado há dois anos. São 13 contratos diferentes que vão levar para o resto do mundo a reconstituição da vida do poeta Gregório de Matos, protagonista de um trabalho que chegou a ser considerado o mais importante romance de autor inédito surgido no país durante os anos 80. Mas nestes dias, Ana não tem tido tempo para tratar das traduções. Ela vive a expectativa do lançamente de seu segundo livro que chega ao mercado nacional esta semana, O retrato do rei. A consagração que a tingiu logo em seu primeiro romance faz com que este segundo trabalho seja cercado de uma expectativa incomum.. Mas não há com que se preocupar -- nem a escritora, nem a editora (Companhia das Letras), nem os 50.000 leitores que compraram o primeiro livro. O retrato do rei também é ótimo. Da primeira vez, Ana Miranda mergulho no Brasil do século 17. Agora, ela nos mostra o país do início do século 18. A história começa num Rio de Janeiro decadente -- descrito como "um depósito de mendigos"--, continua numa Minas Gerais com jeito de faroeste -- ainda estavam sendo exploradas as primeiras minas de ouro -- e termina numa desiludida São Paulo -- derrotados na exploração aurífera de Minas resta aos bandeirantes descobrir novos veios no Centro Oeste. São mais de 300 páginas impregnadas de História mas, se depender da crença de Ana Miranda, O retrato do rei não deve ser lido como um romance histórico. "Não acho que exista mais o chamado romance histórico", diz ela. "Meus romances têm alguns elementos que os historiadores também usam. Mas não estão numa categoria à parte. O romance histórico era um gênero muito definido quando Walter Scott escreveu Ivanhoé (1819). Depois começou a ser trabalhado por uma série de escritores no mundo inteiro e se diluiu em romance como um todo." Ana Miranda lembra que Marguerite Yourcenar costumava dizer que tanto Tólstoi, com Guerra e paz, como Proust, com Em busca de um tempo perdido, estavam falando sobre o nosso passado. E acrescenta: "A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, não é um romance histórico, mas conta a Primavera de Praga." O retrato do rei, então, não é um romance histórico, mas conta a Guerra dos Emboabas. É este o cenário principal de uma trama com todos os ingredientes da melhor novela das 6. Há uma heroína -- Mariana de Lencastre, uma dondoca do Rio de Janeiro que o destino vai levar à selvagem Minas Gerais. Há um galã aventureiro -- o paulista Valentim, protetor de Mariana em sua viagem. Há um vilão memorável -- o intrigante frei Francisco de Meneses, um religioso que não honra a bata que veste. Unindo os três destinos, há o retrato do rei Dom João V. Quando o romance começa, Mariana recebe duas notícias que vão mudar sua vida: ela está falida e seu pai está à morte em Minas Gerais. Ela segue para lá, em busca da herança, acompanhada por Valentim, um desbravador das ricas terras mineiras, que luta para expulsar os forasteiros da região. Para apaziguar os ânimos da região aurífera -- os paulistas vivem em combate com os portugueses pelo direito de explorar as minas --, o governador do Rio de Janeiro manda para lá um retrato do novo rei de Portugal. É a prova de que a Coroa está do lado dos paulistas. Quase por acaso, o quadro é levado na bagagem de Mariana. Uma viagem do Rio a Ouro Preto, naqueles tempos, demorava 30 dias. Frei Francisco, interessado em que os paulistas saiam da área, segue os viajantes para roubar-lhes o retrato. No meio do caminho, muita coisa vai acontecer, até a aparição do bandeirante Borba Gato. O retrato do rei tem um ritmo de folhetim e o estilo seco e preciso que fez a fama de Boca do Inferno. São capítulos curtos, parágrafos curtos, períodos curtos. Ana Miranda sabe inventar uma história e sabe como contá-la, mas ela torna seu trabalho ainda mais complicado ao rechear sua trama de detalhes e descrições que parecem feitos pela mais aplicada das historiadoras. Por isso O retrato do rei é também uma deliciosa crônica sobre os costumes de três séculos atrás. Um livro de Ana Miranda significa meses de trabalho na Biblioteca Nacional. "Tomo isso um pouco como missão", conta ela. "Quero entender um pouco melhor o nosso país, saber por que somos assim. É importante existir esse tipo de literatura no Brasil." A primeira comparação que vem à cabeça é com o trabalho de Umberto Eco em O nome da rosa. Ana Miranda concorda um pouco. "Tem uma coisa parecida na forma de narrar É uma coisa realista que eu aprendi com ele e com o (José) Saramago -- a liberdade de tratar com o tema histórico. Eu tinha medo no começo. Até que ponto eu tinha liberdade para tratar este tema? Mas descobri que a literatura era absoluta." Alguém já disse, e Ana Miranda gosta de repetir, que, "se a História não serve à literatura, muda-se a História. "Não chego a este ponto de ousadia", admite ela. "Eu procuro recriar aquele período com o máximo possível de veracidade. Mas eu respeito muito a estrutura do livro também. O que o romancista está trabalhando é a verdade poética do passado." A pesquisa de O retrato do rei já tinha meio caminho andado quando, há dois anos e meio, Ana Miranda começou a escrevê-lo. Afinal, ele tem quase o mesmo tema de um outro romance da escritora, feito em 1979, que nunca chegou às livrarias. "Tinha 400 páginas. Mas não fiquei contente com ele. Joguei fora", conta ela. Este romance inédito tinha também a centelha de Boca do Inferno. Um dos personagens -- uma velha -- contava que tinha sido amante de Gregório de Matos. O romance que foi para o lixo era ambientado no auge da mineração, em 1750. O retrato do rei é passado meio século antes. Ana começou a se interessar pelo Brasil da descoberta de ouro em 1973 quando, casada com o ator Arduino Colasanti, morou seis meses em Parati durante as filmagens de Como era gostoso o meu francês, de Nélson Pereira dos Santos. Ëu fazia experiências com contos e resolvi escrever um sobre a trilha do ouro -- que ia de Ouro Preto a Parati. Comecei a fazer pesquisas para compreender melhor e fui me apaixonando." É impossível arrancar de Ana Miranda o que nasce primeiro, a pesquisa ou a trama. "É simultâneo", garante. "``As vezes você começa a inventar uma coisa, vai pesquisar e descobre que ela existe". Foi assim com a reação dos personagens de O retrato do rei que sempre se ajoelham diante da efígie de Dom João V. "Eu imaginei que as pessoas se ajoelhariam diante dele. Depois, vi um quadro no Museu do Prado, na Espanha, em que aparecia um retrato de Felipe IV (rei da Espanha entre 1621 e 1665) e as pessoas olhando para ele ajoelhadas. Fiquei feliz." Enquanto O retrato do rei chega às livrarias, mais dois romances começam a tomar forma, no computador de Ana Miranda. "Tem o livro que eu acho que devo fazer e o que eu estou com vontade de fazer. Estou escrevendo um pouquinho de um; um pouquinho do outro", conta ela. O primeiro faz parte do projeto da escritora de continuar avançando pela História do Brasil. O segundo é um mistério. Não seria um romance histórico? "Mesmo que eu escreva um livro sobre os dias de hoje, vai ter um pouco de História", acredita ela. "No fundo, a gente está sempre escrevendo o mesmo livro." A luta pelas minas - Livro reconta uma guerra esquecida pelos brasileiros O novo romance da Ana Miranda reproduz, com muito de ficção, um episódio da História do Brasil que, para a maioria dos brasileiros, estava esquecido em algumas páginas de um livro do curso de 2* grau: a Guerra dos Emboabas. O embate entre paulistas -- os bandeirantes que descobriram ouro em Minas Gerais -- e emboabas (os forasteiros, entre eles portugueses, pernambucanos, baianos, que acorreram à região em busca do enriquecimento rápido) é o clímax de O retrato do rei. Minas era dependente do Rio de Janeiro e uma espécie de terra de ninguém, distante muitas léguas de qualquer autoridade. O conflito aconteceu na primeira década do século 18: os paulistas consideravam-se donos das terras que foram distribuídas pelo governo para quem quisesse nelas minerar. Quase não utilizado pelos escritores de ficção no Brasil (e aí incluem-se não apenas os romancistas, mas também os autores de novelas de TV, minisséries, roteiros de cinema, casos especiais...) o período é semelhante ao da corrida do ouro nos Estados Unidos, que rende, há quase um século, o gênero por excelência do cinema americano: o western. Muitos dos nomes que marcaram esta parte da História do Brasil são personagens importantes do romance de Ana Miranda. Um deles é o português Manuel Nunes Viana, latifundiário e criador de gado, que assumiu, sem que a Coroa soubesse, o posto de governador das Minas Gerais. Outro é o principal vilão de O retrato do rei, o frei Francisco de Meneses, que forneceu à ditadura de Viana uma autoridade divina. Um terceiro é o aventureiro Bento do Amaral Coutinho, responsável pela maior chacina da guerra, em que morreram cerca de 300 paulistas. A pacificação -- mas o livro de Ana Miranda, que começa em 1707, não vai até lá -- só acontece em 1709 com a criação da capitania de São Paulo e Minas do Ouro sob o governo de Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho. O episódio é tão pouco conhecido que o romance ainda tem o mérito de fazer o leitor torcer pela vitória dos paulistas, que acabaram humilhados e deslocados para São Paulo. A personalidade do rei do retrato O personagem principal do novo romance de Ana Miranda não é a heroína Mariana, o bandeirantes Borba Gato, o herói Valentim ou o vilão frei Francisco de Meneses. É um personagem mudo, inanimado, mas que move toda a trama e está presente em todas as ações do livro: o retrato do rei. O rei em questão é Dom João V, nascido em Lisboa em 22 de outubro de 1689, com o nome completo de João Francisco António José Bento Bernardo, 24* monarca de Portugal, que chegou ao trono em 1* de janeiro de 1707, mesmo ano em que se passa quase toda a história de O retrato do rei. Chamado de O magnânimo, João V teve um dos mais longos reinados portugueses -- 44 anos. Admirador confesso do francês Luís XIV, casou-se com Maria Ana de Áustria, mas ficou famoso por suas aventuras extra-conjugais. Por sua cama passaram muitas mulheres famosas na época, como madre Paula Teresa da Silva (era madre mesmo), Luísa Clara de Portugal (com quem teve uma filha), e a atriz italiana Petronilha, que ao terminar seu caso com o monarca ganhou de brinde tantos presentes que precisou de 30 mulas para carregar a bagagem que a levaria de volta à Itália. A personalidade de Dom João V, porém, não está presente em O retrato do rei. Importanto no livro é a sua imagem que, acreditava-se, apaziguaria os ânimos na agitada Minas Gerais do início do século 18. No livro, ela é descrita quando o governador do Rio de Janeiro, Fernando Martins Mascarenhas de Lancastre, mostra o retrato para sua prima Mariana. "Fernando abriu a caixa e retirou o pano, exibindo o retrato com veneração. "Nosso rei!" Mariana flexionou os joelhos, em cumprimento. "Majestade." "O rei!, em efígie. É como se estivesse presente entre nós." Mariana curvou-se de novo, agora com muito mais reverência. Os olhos do governador brilhavam. "Sabeis o que significa a presença do rei no Rio de Janeiro?", disse Fernando, sem desviar sua atenção do retrato. "A graça real. O poder divino e humano, senhor da vida e da morte dos homens. Os únicos limites do rei são o próprio rei." "Ele tem mesmo as sobrancelhas arqueadas. Dona Maria Clara o viu pessoalmente." "Significa tenças, empregos, privilégios, benefícios, honra. Poder." "Ele é tão jovem", disse Mariana. Fernando cobriu o retrato.
Veja, Livros, 4 de setembro, 1991 Matança no eldorado - Num romance mal estruturado mas bem escrito, Ana Miranda encara a Guerra dos Emboabas Para a maioria dos Brasileiros, a Guerra dos Emboabas é uma reminiscência dos bancos escolares, um episódio perdido no começo do século XVIII, quando uma rinha entre portugueses e paulistas pelo ouro de Minas Gerais resultou em chacinas de lado a lado. Em O Retrato do Rei, novo livro da escritora cearense Ana Miranda, essa passagem do Brasil colonial ganha contornos de uma aventura fascinante. O livro é a segunda investida de Ana no romance histórico. A primeira, há dois anos, foi o bem-sucedido Boca do Inferno, centrado no poeta setecentista baiano Gregório de Matos Guerra, que permaneceu por mais de cinquenta semanas nas listas de mais vendidos do país. A cena literária nacional assistiu com certo espanto àquela escritora quase estreante acertar a mão logo com um gênero difícil, que costuma trair até autores tarimbados. Agora, Ana Miranda repete a façanha -- ou quase O Retrato do Rei é um livro de muitas qualidades e um defeito: o argumento que lhe serve de fio condutor. Se em Boca do Inferno a autora contava com protagonistas do peso de Matos Guerra e do padre Antônio Vieira, neste a tarefa é entregue à fictícia Mariana de Lancastre, uma jovem nobre, filha de um barão que deixara o Rio de Janeiro em busca de riqueza nas minas. O velho está à morte e Mariana se lança a uma penosa viagem de três meses do Rio ao interior para visitá-lo. A certa altura lhe cai às mãos o retrato a óleo que o rei dom João V de Portugal havia mandado aos paulistas, como forma de consagrá-los no papel de governantes da região das minas e evitar uma guerra com a facção que lhes tentava usurpar o poder -- om emboabas, em sua maioria portugueses aventureiros. Ocorre que no livro o tal retrato de dom João V percorre uma trajetória sinuosa sem que ninguém entenda por quê. Mariana lhe serve de portadora, depois o rouba, o esconde, o recupera, o esconde de novo e deixa que o roubem, numa série de operações gratuitas que nenhuma falta faz ao romance. A própria Mariana é um personagem confuso, duro de engolir. Seria ela uma nobre que fica louca? Uma mulher de fibra em busca do amor? Tremeliques -- Embora o retrato do rei batize o romance, o melhor é esquecê-lo e mergulhar na narrativa fascinante dos episódios ligados à Guerra dos Emboabas, aos cercos aos povoados, às batalhas sangrentas, às traições, à gangorra fantástica do jogo do poder. Ana Miranda é habilidosa na arte da descrição, domina o português como poucos ficcionistas brasileiros atuais e escreve assombrosamente bem. Em muitas passagens, como a armadilha incendiária criada pelos emboabas para derrotar os paulistas na tomada de Sabará, o leitor se sente no meio da batalha. É um prazer vê-la também detalhar os personagens de época, como uma negra dançando: "Um arrojo impetuoso nascia de seu ventre e alongava-se até as partes superiores; ela curvava a cabeça como se deitando fora de si todos os humores e venenos que a molestavam". Ou explicando, pela boca da velha aia Sofia, quais os deveres de uma esposa na noite de núpcias: "Se fores possuída de tremeliques e rebuliços, deves te conter, é o capeta que deseja entrar em teu corpo", aconselha a criada. Pastéis - Apesar da malfadada Mariana, o livro é pródigo em personagens atraentes. O melhor deles é frei Francisco de Meneses (que existiu na vida real, embora não com o perfil que a autora lhe empresta). Astuto como uma raposa e infiel como uma víbora, o frei é capaz das piores intrigas e dos métodos mais baixos para recuperar um cartório que possuía, sobre a venda da carne na região das minas. Volta e meia surgem personagens menores que renovam as cores do romance, como a impagável taberneira Brígida, que vendia pastéis, lã inglesa, pólvora contrabandeada e "criadinhas carinhosas." Como moldura para a Guerra dos Emboabas e para as aventuras dos personagens de Ana Miranda, o livro apresenta uma boa descrição do Brasil do início do século XVIII. A corrida pelo ouro das minas esvaziava as capitanias de homens e de investimentos e o Rio de Janeiro, nas palavras (imaginadas pela autora) do então governador Fernando de Lancastre, tornara-se um "depósito de mendigos". Governantes acenavam com o patriotismo de olho no próprio bolso e negociantes faziam malabarismos para sonegar os impostos devidos à Coroa. Enquanto isso, na Corte, o festeiro dom João V fazia churrasco da fortuna do reino e pavimentava seu caminho rumo ao posto de um dos mais desastrados reis de Portugal. Não fosse por um tropeço tão grande na concepção, O Retrato do Rei seria uma obra dessas que o leitor atravessa sem perceber. |
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