DESMUNDO

Ana Miranda


Páginas 216
Preço R$ 25,50
Formato 14 X 21 cm
Peso 0,318 kg
ISBN 8571645663
 

Numa noite estrelada do ano de 1555 chega ao Brasil uma caravela trazendo uma leva de órfãs mandadas pela rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam. Com a mente repleta de sonhos e fantasias, elas pisam pela primeira vez a terra distante, onde um mundo rude, belíssimo, violento, as espera. A história dessas órfãs é contada por uma delas, Oribela, com sua visão mítica, espiritual, sensual, uma jovem que costuma ter visões noturnas, ímpetos de partir e muito medo da paixão que habita sua alma. Seu relato íntimo revela, todavia, não apenas as aspirações e angústias de sua desamparada existência feminina, mas a brutalidade do desmundo que a cerca, o encontro de povos em guerra, o conflito entre seres diferentes, a intolerância religiosa, os terrores que encerra o desconhecido.

Suas "palabras pronunciadas con el corazón caliente" formam um suntuoso relato arrancado das partes mais inconscientes, mais misteriosas, de um ser que atravessou não apenas o oceano Atlântico, mas a linha imaginária que separa a realidade e o sonho, a liberdade e a escravidão, o amor e o ódio, a virtude e o pecado, o corpo e o espírito.

 

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Desmundo

 

PARTE 1 - A chegada

1

A vista de uma colina distante tangeu dentro do meu coração música de boas falas, com doçainas e violas d'arco, a ventura mais escondida clareia a alma. Ali estava bem na frente a terra do Brasil, eu a via pelos estores treliçados, lustrada pelo sol que deitava. Uxtix, uxte, xulo, cá! Verdadeira? Tão pequena quanto pudesse eu imaginar, lavada por uma chuva de inverno, verde, umas palmeiras altas no sopé, por detrás de nuvens de tapeçaria, véu de leve fumo. Hio, hio, huhá. Espantada que a alegria pudesse entrar tão profundamente em meu coração, em joelhos rezei. Deus, graças, fazes a mim, tua pequena Oribela, a mais vossa mercê em idade inocente, um coração novo e um espírito de sabedoria, já estou tão cegada pela porta de meus olhos que nada vejo senão deleitos, folganças do corpo, louvores, graças prazentes e meu coração endurecido, entrevado sem saber amar ou odiar. Assim como o azeite acende o lume, a vista acende o desejo. Dá a mim a graça de muitas lágrimas com que lavar o meu sonho, maior que meu corpo.

Nossa carne quebrada, já sendo vencida pela fraqueza e ainda assim se batiam palmas. Cantai, cantai. Davam pancadas nas tábuas de nosso camarote para aviso da terra, não tivéssemos dois olhos bons em cada fuça, diziam para darmos mostra da ventura, queridas,  boa a chegada, acabada a água do armário do camarote e só chuva para tomar,  atinava eu que ia beber água fresca, água fresca, água fresca água fresca águafrescaáguafresca larari lará, molhar as mãos, as ventas,  derramar o que fosse, sem contar gota por gota, não ouvir mais gente bradar por água, molhar meus cabelos em um chafariz, bica, ter um lugar onde ficar só, sem ver caçarem os peixes, ferroarem seus olhos, rasgarem suas gargantas,  pardeus, sem ouvir mais a litania do padre Antolim e suas gritarias para despossuir gente tomada pelo Diabo, as más línguas da Parva amarrada ao pé do condenado, ia eu ter uma cama onde pudesse estirar minhas pernas e sem me acordarem cotovelos alheios, nem o medo, nem o suor, nem as vacas batendo os chifres nas cavernas, será?

2

Ia tirar de mim o cheiro de lã podre, vestir camisa limpa, lavar o sal da pele, comer fruta da árvore, carne assada, esquentar as mãos num fogão de lenha, assentar à mesa,  adeus ferrugem, adeus carne de porco na banha, ai um pão quente, um ceitil de cerejas, tudo parecia alta maravilha, qualquer botão de corno, qualquer fita, nova vida, sem rezar pelas monções nem temer as tempestades e jogar os pequenos ágnus-dei de cera na água para acalmar, rainha de nossa sorte,  lançar às águas as cartas de baralho,  os livros de pecados e fornicações fora o preço da nossa vida tão mal paga, que nada vale, ia poder andar numa relva, ter uma igreja onde assistir à missa e imagem de santa, deixar malga de leite à janela para os mortos, lavar minha boca, que sentia os dentes escuros da mula espanhola ia deitar numa cama sem me importar se era dia santo ou domingo e ao acordar comer chorizos de sangue, depois de estômago cheio rezar pois, dissera meu pai, na hora do batismo encostaram em minha testa uma cruz e eu gritara muito, prova de haver coisa em mim. Amém, amém, mas nada podia eu compreender do mundo e do céu, meu modo era esquivar e renegar, no que fiz o sinal-da-cruz no peito, a face vazia, sem obra, sem costume, sem a memória do passado, os olhos alongados ao verde da terra, pensando naquelas coisas que desfazem um coração limpo.

Jornal do Brasil, Idéias Livros, 15 de junho de 1996 (resenha escrita por Cristiane Costa)

Bordar sentimentos e palavras, sem que a tênue linha se rompa, nem se esvazie a trama, é talvez o grande desafio de um escritor. O risco é ainda maior se a linguagem precisa ser roubada do passado, mentalidades e cotidiano recriados em seu mínimo esplendor. Em Desmundo, Ana Miranda supera esses obstáculos e até a si mesma. De longe o melhor livro da autora de Boca do Inferno, Sem pecado e A última quimera, Desmundo é ao mesmo tempo uma experiência lingüística e um mergulho na alma de uma mulher do século 16. Um fluxo de palavras não traduzidas, mas escritas originalmente numa linguagem arcaica, bordando de pérolas autênticas uma trama de grande carga emocional.

"Já que escrevi a Vossa Alteza a falta que nesta terra ha de mulheres, com quem os homens casem e vivam em serviço de Nosso Senhor, aparados dos peccados, em que agora vivem, mande Vossa Alteza muitas orphãs e si não houver muitas, venham de mistura dellas e quaesquer, porque são tão desejadas as mulheres brancas cá, que quaesquer farão cá muito bem à terra, e ellas se ganharão, e os homens de cá apartar-se-ão do peccado." Desse pequeno trecho da carta do padre Manoel da Nóbrega ao rei de Portugal, datada de 1552, Ana Miranda tirou o cerne da história de Oribela, uma das 14 órfãs enviadas ao Brasil para purificar o sangue português, ameaçado pela miscigenação com as nativas -- únicas fêmeas com que ladrões, degredados e ambiciosos colonizadores  contavam no Novo Mundo para satisfazer seus desejos mais imperiosos. Mulheres brancas são importadas para garantir uma descendência legitimamente portuguesa aos donos do Brasil. Sem elas, as diferenças entre opressor e oprimido tenderiam a desaparecer nas gerações seguintes,  herdeiras do grande país.

Sobre esse episódio menor e esquecido da história do Brasil -- não há registro do nome dessas mulheres, sua origem ou seu destino --, a autora criou uma ficção tão rica em imaginação quanto em verossimilhança. Em suas divagações, a jovem e rude Oribela registra o choque cultural, as superstições, a sexualidade, as regras sociais e os duros castigos para os transgressores da moral do século 16. Personagem feita de carne e osso, a portuguesa é teimosa e ignorante por fora,  imensa e profunda por dentro, repleta de fantasias, conflitos e mistérios.

Se fosse só pela poética sonoridade, pela sintaxe atravessada, pela ousadia de misturar palavrões e aliterações, Desmundo já seria um belo livro.  Mas Oribela é obstinada em tentar uma volta  impossível para o velho mundo. Em busca do conhecido -- passado doloroso, mas conhecido -- acaba indo de encontro a todos os perigos, da ira do marido abandonado, às feras da mata virgem e as pedras da sociedade. Três vezes ela foge do casamento a que foi empurrada, pelos padres e reis, com um desconhecido que só lhe provocava náuseas. "Seu aspecto era o de um cão danado, lhe faltavam dentes, tinha pernas finas, nariz quebrado, da cor de um desbotado seus olhares. Cheirava a vinho de açúcar, usava um chapéu roto, tinha tantos pêlos a modo de uma floresta desgrenhada e estava sujo, imundo (...) O homem me veio a mirar e no rosto lhe cuspi", conta a jovem rebelde, que aceita o casamento com medo de um mal maior, acabar como outra mulher que conheceu no mosteiro, que teve os pés e mãos cortados por recusar um marido.

Mas, como um animal selvagem engaiolado, Oribela só pensa em fugir. Na primeira tentativa, é estuprada pelos marinheiros que deveriam levá-la ao navio e amarrada pelo marido ao pé da cama. Na segunda, perde a esquadra, mas encontra a paixão pelo homem a que mais temia. Na terceira, depois de colocar fogo em tudo, vive a loucura ou a felicidade, dependendo de como se lê a última página de sua história.

"Este livro foi a minha aventura mais arriscada", revela Ana Miranda. Durante um ano e meio, a autora se debruçou sobre as cartas de padre Manoel da Nóbrega -- o padre gago do livro -- A peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, os relatos dos primeiros viajantes, os cinco volumes da História trágico-marítima, os capítulos de A história das mulheres dedicados ao século 16, a obra de Gil Vicente, Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Os desvalidos, de Francisco Dantas. A pesquisa histórico-lingüística que teve um mesmo objetivo: romper a barreira que separa uma escritora de hoje de uma personagem nascida há quatro séculos.

"Foi como aprender uma nova língua. Há muito tempo, tinha a idéia de escrever um livro só com frases e expressões dessa época", conta Ana. "Queria usar só coisas autênticas. Mas descobri que, dessa forma, a tarefa seria impossível. Para dizer o que pretendia, precisava me impregnar dessa linguagem e usá-la como se fosse minha. Não poderia traduzir minhas idéias para um português arcaico, tinha que pensar de forma arcaica", explica.

Sem contar com documentação mais detalhada, Ana Miranda soltou as rédeas da imaginação. "As imagens foram tiradas do meu próprio museu do inconsciente", afirma. Tanto que o livro foi ilustrado pela própria autora, que assina dois pequenos desenhos  que abrem os capítulos à imagem da capa: um monstro que devora a si mesmo. Sob vários aspectos, Oribela se parece com as outras personagens femininas de Ana Miranda, em sua passionalidade e tragicidade. "São sempre a mesma pessoa. Mas a cada livro parece que consigo ir mais fundo nesta mulher. Ela é a adolescente que eu fui um dia e que está viva até hoje, mascarada nestes personagens", revela.

Além da ousadia lingüística, outra opção arriscada de Ana Miranda foi romper com a narrativa tradicional. Em Desmundo, não há diálogos e toda a ação é descrita sob o ponto de vista da protagonista, num fluxo de consciência pontuado por flashes de história. O Brasil de quatro séculos atrás foi minuciosamente descrito, assim como os costumes e temores da época.

Um dos trechos abaixo parece ilustrar as teses de Georges Vigarello, autor de O limpo e o sujo: uma história da higiene corporal. Segundo o historiador francês, o século 16 assiste a uma crescente desconfiança  em relação ao banho. Originalmente causado pelas grandes pestes, esse medo de contaminação estende-se à própria fraqueza dos corpos: calor e água produziriam fissuras por onde a peste entraria. Os portugueses chegam aos trópicos com superstições como essa.  Mas acabam assimilando os hábitos dos nativos, muito mais higiênicos.

A progressiva aculturação da personagem e de seu marido, brancos cercados de índios por todos os lados, é um dos temas mais interessantes do livro. Longe de dividir a história em duas, a do colonizador e a do escravizado, Ana Miranda mostra como essas culturas se fundem num caldo, em que o português, uma vez imerso, jamais sairá o mesmo, transformado em brasileiro.

"Eu pintava o rosto de urucum, comia do prato das naturais e me desnudava nos dias quentes, deixava os chicos chuparem meus peitos, dançava, de modo que dona Branca veio baixar umas regras, antes que virasse eu uma bárbara da selva e me metesse a comer de carne humana", conta Oribela.

O Estado de São Paulo, Segundo Caderno (resenha escrita por Wander Melo Miranda

Ana Miranda abre caminhos em selva de signos. Ela mostra a versão feminina da colonização do Brasil no seu novo romance, Desmundo.

Em 1552, o padre Manoel da Nóbrega solicita ao rei d. João de Portugal que envie ao Brasil órfãs de boa cepa ou, na falta destas, quaisquer outras mulheres brancas, "para que os homens casem e vivam em serviço de Nosso Senhor". Atendida a solicitação, é dado início ao projeto jesuítico de impedir a miscigenação nas novas terras descobertas e assim poder formar  uma sorte de elite colonial. O episódio das órfãs, após ter sido objeto de estudos históricos, migra para o campo da ficção em Desmundo, o belo romance de Ana Miranda que acaba de ser publicado.

Pela boca de uma das órfãs, Oribela, o sentido da história toma imprevistas direções, violando o interdito de que "no lábio da mulher há de cintilar o silêncio, onde floresce seu saber". Propositalmente em fragmentos, como se a todo instante Oribela tivesse de retomar uma fala interrompida -- fio da sua história --, a a narrativa traça o percurso de uma alteridade que luta por se afirmar. O ato de tomar a palavra antes emudecida e fazê-la proliferar em excesso instaura uma forma não prevista de conhecimento, uma desordem discursiva que se pauta pela metamorfose e pela diferença.

Daí a originalidade do romance na cena brasileira atual, ao constituir-se como uma versão feminina da colonização e, ao mesmo tempo, superar os limites do fato histórico a que remete. Como na epígrafe de Fernando Pessoa, o objetivo maior é "Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstrata" que o "desmundo" das terras estrangeiras aponta como horizonte de possibilidades. Para tanto, cabe aceitá-lo na sua dupla face de território demoníaco e solo fértil para o plantio de uma nova semente, mistura do imaginário europeu das desterradas com o universo de índios e bichos, línguas e costumes estranhos com que se deparam.

À diferença de seus romances anteriores, a trama do novo livro de Ana Miranda é, antes de mais nada, o drama da linguagem de quem narra buscando na selva dos signos a trilha de rotas e enredos alternativos. O desejo de algo que lhe escapa e foge torna-se a meta a ser atingida, algo que não consegue nunca alcançar e só se apreende, de passagem, na urgência de narrar. A travessia do "mar vil e fedorento" em busca do "paraíso" nos trópicos resulta, desde o início, em deslocamentos que colocam o significado da história de Oribela à deriva. Nesse sentido, Desmundo é uma forma de auto-estranhamento da narradora -- "Este mundo é um desterro e nós, estrangeiros", declara --, um modo peculiar de apropriação dos primeiros relatos epistolares das terras brasílicas, por meio da destituição da força elocutória masculina que conferia a esses relatos o poder de uma verdade inconteste.

Tal operação de desmonte efetuada pela narrativa faz-se por meio do uso do pastiche da linguagem quinhentista, que não está a serviço nem da verossimilhança, nem da fidelidade documental. Ao contrário disso, trabalha deliberadamente a favor da opacidade e da ambigüidade do passado que simula representar, insistindo no anacronismo da situação e no efeito de estranhamento que por esse meio se quer provocar no leitor.

Como se o testemunho verbal de Oribela fosse insuficiente para dar conta do movimento de vertigem e metamorfose a que se entrega, Ana Miranda intervém com uma série de vinhetas e com elas abre as dez partes componentes do livro. Elaborados com requinte e sutileza pela autora, esses desenhos assemelham-se a antigas gravuras de cordel e funcionam não como meras ilustrações, mas como uma síntese imagística da narrativa, que passa a transitar entre dois códigos distintos e suplementares.

Sob a forma sedutora de uma sereia que se desdobra nos núcleos temáticos do livro -- a terra, o fogo, o casamento ou a guerra, por exemplo --, as vinhetas compõem um catálogo de seres fabulosos e oníricos, que reiteram a desconcertante alteridade do novo mundo descortinado pela visão de Oribela, sua monstruosa desmedida. Esse outro sentido do maravilhoso conferido a Desmundo condensa-se na vinheta final  em que a sereia se transforma numa árvore, cujas folhas são grandes olhos abertos.

Por artes da metamorfose das imagens criadas, Oribela supera os limites do desterro e da orfandade e se torna a árvore da vida. Fincada no chão, parece ter conseguido enfim aplacar seu desejo de fuga e imobilizar sua ânsia de "palavras e iluminuras". Mas seus olhos-folhas, como de prontidão, não deixam escapar a possibilidade de conquistar outros desmundos, de descobrir novas paisagens.

# Wander de Melo Miranda é professor de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.

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Tese

Discurso poético e discurso histórico: uma relação intertextual

Cláudia Espíndola Gomes

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Desmundo Filme

 

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