BOCA DO INFERNO

Ana Miranda


Páginas 336
Preço R$ 26,50
Formato 14 X 21 cm
Peso 0,392 kg
ISBN 8571640599
   

 

Com Boca do Inferno, ambientado na Bahia, em plena efervescência mercantilista do século 17, Ana Miranda restaura os cacos de um país popularmente tido como pacífico, substituindo essa mentira calcificada por uma de caráter ficcional, mas consentânea com a verdade histórica.

O assassinato do alcaide-mor é mero pretexto fabular para dividir em duas a sociedade baiana de então: perseguidores e perseguidos. O que interessa mais é a capacidade paradoxal que o evento carrega, porque desperta a vida naquela sociedade.  Desencadeia-se o furor persecutório do poder  estabelecido que não recua diante do ilegal e do ilegítimo para agarrar supostos culpados,  cujo motivo único de suspensão advinha do uso constante da palavra incandescente.

A perseguição intensa leva o leitor pelos meandros da política, dos conluios e dos conchavos,  bem como pelas vielas tortuosas de uma cidade, cuja topografia de altos e baixos, geralmente atolados na imundície,  espelha de modo exemplar o sinuoso da vida colonial brasileira. Sob uma aparência de normalidade esconde-se um mundo turbulento, carregado de ambições, de falcatruas, de sensualidade, de religiosidade e de sexualidade desenfreada. Numa sociedade em (de) composição, o priapismo de Gregório de Matos encontra seu correlato tanto no furor verbal de Vieira quanto nas arbitrariedades sistemáticas da caterva do governador. Do antagonismo que se constrói entre ambas as facções surge  um conjunto social em que o Poder identifica-se necessariamente com o Mal, porque dele não se espera outra coisa que a corrupção e a venalidade.

 Para combatê-lo em seus excessos não resta senão a esperança da Palavra. Da boca de Vieira, o verbo polido desdobrando-se numa sinonímia infinita e espiralada que encontra paralelo inverso nas várias modalidades de prevaricação governamental.  Da boca de Gregório, o jorro desmesurado de uma linguagem que, por aversão ao meio, não se peja de refleti-lo de modo espetacular. Daí seu caráter popular, porque mais rapidamente assimilável, o que gera o fastio externo da camada culta.

Em um relato refinado, no qual se incluem pepitas históricas, estilísticas, sintáticas e léxicas, Boca do Inferno revela capacidade de persuasão e de envolvimento, provenientes da urdida verossimilhança, que põe de escanteio o eventual veto ao rigor histórico, o qual se mostra inequívoco, graças à indisfarçável pesquisa em que se assenta o texto. Comprovante desse trabalho meticuloso é o delírio verbal e descritivo que cumpre uma função estética: a de representar a face tumultuada daquela sociedade, dificilmente apreensível por meio do vocábulo unívoco e seco.
 
                                                                                                                      Antonio Dimas

Boca do Inferno

 

A cidade

A cidade fora edificada na extremidade interna meridional da península, a treze graus de latitude sul e quarenta e dois de longitude oeste, no litoral do Brasil. Ficava diante de uma enseada larga e limpa que lhe deu o nome: Bahia.

A baía, de pouco mais de duas léguas, começava na ponta de Santo Antonio, onde tinha sido edificada a fortaleza do mesmo nome, e terminava aos pés da ermida de Nossa Senhora de Monserrate. No meio desse golfo estava a cidade, sobre uma montanha de rocha talhada a pique na encosta que dava para o mar, porém plana na parte de cima; esse monte era cercado por três colinas altas, sobre as quais se estendiam as povoações. Ao sul, as casas terminavam nas proximidades do mosteiro de São Bento; ao norte, nas cercanias do mosteiro de Nossa Senhora do Carmo. O terceiro extremo da cidade, a leste, era escassamente povoado.

Três fortes, dois em terra e um no mar, defendiam a praia estreita da Bahia. A faixa longa da costa, onde se enfileiravam armazéns, lojas e oficinas, ligava-se à parte alta por três ruas íngremes. O barulhento molinete dos jesuítas içava a carga pesada entre uma e outra partes da cidade.

Ainda se viam resquícios dos danos causados pelas guerras contra os holandeses, desde quase sessenta anos antes. Ruínas de casas incendiadas, roqueiras abandonadas, o esqueleto de uma nau na praia. Em ligares mais ermos podiam-se encontrar, cobertos pelo mato, estrepes de ferro de quatro pontas. Perto da porta do Carmo havia, ainda, covas profundas e altos baluartes que tinham servido de trincheira.

Numa suave região cortada por rios límpidos, de céu sempre azul, terras férteis, florestas de árvores frondosas, a cidade parecia ser a imagem do Paraíso. Era, no entanto, onde os demônios aliciavam almas para povoarem o inferno.

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"Esta cidade acabou-se", pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado no terreiro de Jesus. "Não é mais a Bahia. Antigamente havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, fazem assaltos à vista."

Veio à sua mente a figura de Gongora y Argote, o poeta espanhol que tanto admirava, vestido como nos retratos em seu hábito eclesiástico de capelão do rei: o rosto longo e duro, o queixo partido ao meio, as têmporas rapadas até detrás das orelhas. Gongora tinha-se ordenado sacerdote aos cinqüenta e seis anos. Usava um anel de rubi no dedo anular da mão esquerda, que todos beijavam. Gregório de Matos queria, como o poeta espanhol, escrever coisas que não fossem vulgares, alcançar o culteranismo. Saberia escrever assim? Sentia dentro de si um abismo. Se ali caísse, aonde o levaria? Não estivera Gongora tentando unir a alma elevada do homem à terra e seus sofrimentos carnais? Gregório de Matos estava no lado escuro do mundo, comendo a parte podre do banquete. Sobre o que poderia falar? Goza, goza el color, da luz, el oro. Teria sido bom para Gregório se tivesse nascido na Espanha? Teria sido diferente?

    

Jornal do Brasil, 12 de agosto de 1989, primeira página, primeiro caderno

Nasce uma estrela

Prepare-se o leitor para uma jóia rara, trabalhada em sua ourivesaria com devoção de monge, pesquisada com rigor de cientista, e brilhante em seus resultados como as mais finas pedrarias. Esta semana, chega às livrarias o romance Boca do Inferno, de autoria de Ana Miranda, uma cearense de 37 anos, radicada no Rio. Trata-se de acontecimento que, por múltiplas razões, merece ser comemorado.

Comemore-se em primeiro lugar o prazer em si de ler o livro. Poucas vezes, nos últimos tempos, um romance brasileiro terá brindado o leitor com igual dose de ação e elegância, de regalos similares à sua emoção e à inteligência.

Comemore-se em seguida o tema do livro. Com Boca do Inferno, o leitor revisita nada menos do que o século 17 brasileiro, e enquanto acompanha pelas vielas sujas da então capital da colônia, a cidade da Bahia, os pormenores de uma conspiração contra o governador-geral Antônio de Souza, no ano da graça de 1683, depara com personagens como o poeta Gregório de Matos, o Boca do Inferno do título, e o padre Vieira, o dos Sermões.

Comemore-se por tabela, com Boca do Inferno, o ingresso do Brasil num gênero -- o do moderno romance histórico -- imposto ao redor do mundo por penas como a do italiano Humberto Eco e da belga Marguerite Yourcenar, do americano Gore Vidal e do português José Saramago.

Comemore-se por fim em Ana Miranda, a autora do livro, que teve como patrono e orientador de seu trabalho ninguém menos do que Rubem Fonseca, o surgimento de uma estrela. Ela é certamente a maior revelação, em muitos anos, das letras nativas. Nasceu algo de novo -- e muito bom -- na literatura brasileira.

 

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