Prece a uma aldeia perdida

Ana Miranda


Páginas 128
Preço R$ 24,90
Formato 13 x 20 cm
ISBN 8501071390
   

ALDEIA REVISITADA

  

Miguel Sanches Neto

  

A marca registrada de Ana Miranda é o diálogo com outras obras, a partir de uma apropriação de espaço, tempos e linguagens, o que lhe rendeu um estilo particular, reconhecido internacionalmente. Foram seus romances que a projetaram na literatura brasileira, embora tivesse estreado – como quase todos nós – com um volume de poesia. E é a poeta que ressurge agora em Prece a uma aldeia perdida (Record, 2004), obra que nasce necessária por valorizar um universo lingüístico e afetivo tão negado em nossa produção contemporânea.

Ana Miranda escreveu um longo poema dividido em partes, promovendo um diálogo entre duas vozes. Na primeira, o ponto de vista é de quem está ainda na aldeia não nomeada. A segunda é a de quem a vê de fora, e responde ao canto. Estes momentos do livro, embora distintos, se entrelaçam, dando unidade de ritmo e de temática. Na verdade, são duas preces em nome da memória, entendida aqui como um espaço, uma linguagem e uma sensibilidade.

O espaço, como o próprio título anuncia, é a aldeia. Um patrimônio mineiro, de onde chega uma voz ferida pela consciência da perda, lembrança em carne viva da infância interiorana. É para este lugar que a autora, no segundo movimento, se dirige, criando um encadeamento. A aldeia é a síntese do interior brasileiro, com seus móveis telúricos, como o fogão a lenha, as casas simples, os terreiros com galos, o pilão, os doces, a religiosidade etc. No primeiro movimento, esta paisagem determina uma percepção pitoresca da história e é encenada por uma voz masculina, de um homem-menino (“Eu era tão pequenino / hoje sou ainda mais”, p. 13), que se sente solitário e louva sua  província. Tanto o lugar quanto quem fala são seres mínimos, ligados a uma região com medidas humanas. Apesar desta aparente mediocridade do meio, Ana Miranda dá estatuto de grandeza religiosa a tudo, empreendendo a celebração deste existir irrelevante:

 

A vida nunca é pequena

Pequeno é o seu altar (p. 19)

 

Nestes eventos desimportantes, ela encontra uma transcendência, pois estão povoados pela força da vida e pelo elemento divino, pouco importando se sua manifestação se dá num templo luxuoso ou no altar de madeira das famílias pobres. O que conta é o estofo vivo e não o continente. Esta afirmação é de extrema importância para compreender a opção da autora por um mundo pobre de imagens, decalcado de nossa vida interiorana, onde se dá, no confronto entre ela, uma representante da metrópole, e todo aquele mundo pertencente a outra idade urbana, uma identificação que a conduz a um estado de graça, cujo resultado é a longa prece para a aldeia revisitada.

Clarice Lispector, uma das autoras reverenciadas por Ana Miranda, definiu o estado de graça como “uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom” (A descoberta do mundo. Rocco, 1999, p. 91). É esta bem-aventurança que sentimos ao longo do poema.

A visita a este espaço marca um reencontro com a história da própria poeta. Na segunda parte, ela vai se reportar a um passado distante, mantido sob sua posse memorialística: “As lembranças são tão velhas / mas ainda me pertencem” (p. 95) e “No tempo em que eu tinha quintal / Foi quando eu era menina / Tinha pai e um desespero” (p.107). Ao percorrer a aldeia, ela se transporta para outro momento, ocorrendo uma suspensão da distância que lhe permite uma experiência redentora da condição humana, tal como pensava Clarice sobre estas súbitas aberturas na temporalidade.

Embora o poema fale da passagem de tudo e o próprio ritmo seja de uma via-crúcis, há uma crença final na permanência, que é o centro destas experiências poéticas da autora. Ela diz: “Vivi toda a minha vida / em busca da permanência [...] / da permanência / que permanece na ausência” (p.64). A prece termina afirmando, dialeticamente, que tudo passa e que nada vai passar.

Na aldeia paralisada em outra era, Ana Miranda se encontra com suas raízes, elidindo a distância que a afastava delas e se reconciliando com formas de ser tidas como ultrapassadas. Esta reconciliação empurra-a para uma linguagem lírica, praticada de forma exemplar neste livro. O tom de prece, as imagens, o ritmo fluído, as rimas espontâneas, todos os atributos deste material lingüístico estão em sintonia com o próprio espaço-tempo visitado (duplamente: ida à aldeia e memória de sua infância) pela autora.

Há uma equivalência entre poesia e prece, estampada no título, e anunciada em versos como: “A poesia é oração” (p. 67) e “As minhas palavras santas” (p.116). Tudo isso remete a uma linguagem íntima, arquetípica, responsável pela cadência tranqüila do poema.

Como estamos diante de uma escritora requintada, não podemos pensar que ela simplesmente resgatou imagens e linguagens interioranas, numa espécie de arqueologia lírica. Dirigindo a esta voz interlocutora, ela diz que a cantiga não é de nenhuma das duas, é coletiva. E no final do livro, Ana Miranda coloca uma nota, apontando algumas de suas fontes poéticas sobre a aldeia-mundo que passa por Drummond, Guimarães Rosa, João Cabral, Ariano Suassuna, entre outros. E é nesta interlocução que sua poesia se aproxima de sua ficção, superando a aparente simplicidade da prece. Seu texto é experiência vivida e de leitura, pois a poeta não tem o olhar inocente do homem comum, ela percebe e vivencia a aldeia de duas formas, como biografia e como biblioteca. Ao ver/ler o lugar, ela o faz por meio de sua história pessoal e pelas lentes emprestadas de outros autores.

A intertextualidade, assim, não é mero recurso pós-moderno, mas caminho para a superação da passagem do tempo e busca de uma permanência, que está na aldeia ainda intacta no interior do Brasil e também na nossa literatura. Por estas duas vias, ela atinge uma mínima segurança quanto à permanência do ser.

 

E quando ali retornarmos

Verás que nunca nos fomos

Pois o lugar onde estamos

O lugar onde estaremos

É sempre o lugar que somos (p.54)

 

O lugar exige o verbo estar. Mas Ana Miranda, nesta estrofe magistral, opera um deslocamento, afirmando que somos o lugar. Esta mudança de verbos é a síntese de todo o livro. Nunca se deixa a pátria perdida, porque ela é quem somos.

 

 

Prece a uma Aldeia Perdida é cantiga. É oração. É poesia bela, comovente e necessária, garante Luciana Villas-Boas, na orelha do livro.

Não, isso não é exagero, não. Ana Miranda, conhecida pelo premiado romance Boca do Inferno, entre outros, se consagra agora como poeta.

O livro não é uma coleção de várias poesias, mas uma apenas, que soa como uma oração, em poemas repletos de belas imagens.

Os versos foram tomando forma enquanto visitava uma fábrica de doces, acompanhava a fabricação de queijo, ouvia conversas de gente da roça e observava crianças andando sozinhas nas ruas.

Em meio a essa simplicidade, Ana reencontrou sua poesia e escreveu um livro corajoso, que merece ser celebrado.

 

Nádia Timm

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