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Prece a uma
aldeia perdida
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ALDEIA REVISITADA A marca registrada de Ana Miranda é o diálogo
com outras obras, a partir de uma apropriação de espaço, tempos e
linguagens, o que lhe rendeu um estilo particular, reconhecido
internacionalmente. Foram seus romances que a projetaram na literatura
brasileira, embora tivesse estreado – como quase todos nós – com um
volume de poesia. E é a poeta que ressurge agora em Prece a uma aldeia
perdida (Record, 2004), obra que nasce necessária por valorizar um
universo lingüístico e afetivo tão negado em nossa produção contemporânea.
Ana Miranda escreveu um longo poema dividido
em partes, promovendo um diálogo entre duas vozes. Na primeira, o ponto
de vista é de quem está ainda na aldeia não nomeada. A segunda é a de
quem a vê de fora, e responde ao canto. Estes momentos do livro, embora
distintos, se entrelaçam, dando unidade de ritmo e de temática. Na
verdade, são duas preces em nome da memória, entendida aqui como um espaço,
uma linguagem e uma sensibilidade. O
espaço, como o próprio título anuncia, é a aldeia. Um patrimônio
mineiro, de onde chega uma voz ferida pela consciência da perda, lembrança
em carne viva da infância interiorana. É para este lugar que a autora,
no segundo movimento, se dirige, criando um encadeamento. A aldeia é a síntese
do interior brasileiro, com seus móveis telúricos, como o fogão a
lenha, as casas simples, os terreiros com galos, o pilão, os doces, a
religiosidade etc. No primeiro movimento, esta paisagem determina uma
percepção pitoresca da história e é encenada por uma voz masculina, de
um homem-menino (“Eu era tão pequenino / hoje sou ainda mais”, p.
13), que se sente solitário e louva sua
província. Tanto o lugar quanto quem fala são seres mínimos,
ligados a uma região com medidas humanas. Apesar desta aparente
mediocridade do meio, Ana Miranda dá estatuto de grandeza religiosa a
tudo, empreendendo a celebração deste existir irrelevante: A
vida nunca é pequena Pequeno
é o seu altar (p.
19) Nestes eventos desimportantes, ela encontra
uma transcendência, pois estão povoados pela força da vida e pelo
elemento divino, pouco importando se sua manifestação se dá num templo
luxuoso ou no altar de madeira das famílias pobres. O que conta é o
estofo vivo e não o continente. Esta afirmação é de extrema importância
para compreender a opção da autora por um mundo pobre de imagens,
decalcado de nossa vida interiorana, onde se dá, no confronto entre ela,
uma representante da metrópole, e todo aquele mundo pertencente a outra
idade urbana, uma identificação que a conduz a um estado de graça, cujo
resultado é a longa prece para a aldeia revisitada. Clarice Lispector, uma das autoras
reverenciadas por Ana Miranda, definiu o estado de graça como “uma
bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num
dom” (A descoberta do mundo. Rocco, 1999, p. 91). É esta
bem-aventurança que sentimos ao longo do poema. A visita a este espaço marca um reencontro
com a história da própria poeta. Na segunda parte, ela vai se reportar a
um passado distante, mantido sob sua posse memorialística: “As lembranças
são tão velhas / mas ainda me pertencem” (p. 95) e “No tempo em que
eu tinha quintal / Foi quando eu era menina / Tinha pai e um desespero”
(p.107). Ao percorrer a aldeia, ela se transporta para outro momento,
ocorrendo uma suspensão da distância que lhe permite uma experiência
redentora da condição humana, tal como pensava Clarice sobre estas súbitas
aberturas na temporalidade. Embora o poema fale da passagem de tudo e o próprio
ritmo seja de uma via-crúcis, há uma crença final na permanência, que
é o centro destas experiências poéticas da autora. Ela diz: “Vivi
toda a minha vida / em busca da permanência [...] / da permanência / que
permanece na ausência” (p.64). A prece termina afirmando,
dialeticamente, que tudo passa e que nada vai passar. Na aldeia paralisada em outra era, Ana Miranda
se encontra com suas raízes, elidindo a distância que a afastava delas e
se reconciliando com formas de ser tidas como ultrapassadas. Esta
reconciliação empurra-a para uma linguagem lírica, praticada de forma
exemplar neste livro. O tom de prece, as imagens, o ritmo fluído, as
rimas espontâneas, todos os atributos deste material lingüístico estão
em sintonia com o próprio espaço-tempo visitado (duplamente: ida à
aldeia e memória de sua infância) pela autora. Há uma equivalência entre poesia e prece,
estampada no título, e anunciada em versos como: “A poesia é oração”
(p. 67) e “As minhas palavras santas” (p.116). Tudo isso remete a uma
linguagem íntima, arquetípica, responsável pela cadência tranqüila do
poema. Como estamos diante de uma escritora
requintada, não podemos pensar que ela simplesmente resgatou imagens e
linguagens interioranas, numa espécie de arqueologia lírica. Dirigindo a
esta voz interlocutora, ela diz que a cantiga não é de nenhuma das duas,
é coletiva. E no final do livro, Ana Miranda coloca uma nota, apontando
algumas de suas fontes poéticas sobre a aldeia-mundo que passa por
Drummond, Guimarães Rosa, João Cabral, Ariano Suassuna, entre outros. E
é nesta interlocução que sua poesia se aproxima de sua ficção,
superando a aparente simplicidade da prece. Seu texto é experiência
vivida e de leitura, pois a poeta não tem o olhar inocente do homem
comum, ela percebe e vivencia a aldeia de duas formas, como biografia e
como biblioteca. Ao ver/ler o lugar, ela o faz por meio de sua história
pessoal e pelas lentes emprestadas de outros autores. A intertextualidade, assim, não é mero
recurso pós-moderno, mas caminho para a superação da passagem do tempo
e busca de uma permanência, que está na aldeia ainda intacta no interior
do Brasil e também na nossa literatura. Por estas duas vias, ela atinge
uma mínima segurança quanto à permanência do ser. E
quando ali retornarmos Verás
que nunca nos fomos Pois
o lugar onde estamos O
lugar onde estaremos É
sempre o lugar que somos (p.54) O lugar exige o verbo estar. Mas Ana Miranda,
nesta estrofe magistral, opera um deslocamento, afirmando que somos o
lugar. Esta mudança de verbos é a síntese de todo o livro. Nunca se
deixa a pátria perdida, porque ela é quem somos.
Prece a uma Aldeia Perdida é cantiga. É oração. É poesia bela,
comovente e necessária, garante Luciana Villas-Boas, na orelha do livro. Não, isso não é exagero, não. Ana Miranda, conhecida pelo premiado
romance Boca do Inferno, entre outros, se consagra agora como poeta. O livro não é uma coleção de várias poesias, mas uma apenas, que soa
como uma oração, em poemas repletos de belas imagens. Os versos foram tomando forma enquanto visitava uma fábrica de doces,
acompanhava a fabricação de queijo, ouvia conversas de gente da roça e
observava crianças andando sozinhas nas ruas.
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